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Não faltam Personal Trainers. Faltam PTs preparados. O que um novo estudo da ISSA revela sobre o futuro da profissão

Não faltam Personal Trainers. Faltam PTs preparados. O que um novo estudo da ISSA revela sobre o futuro da profissão

Há uma frase que se repete há anos no nosso do fitness: "é difícil encontrar bons personal trainers". E durante muito tempo, todos assumimos que o problema era numérico: poucos profissionais, muita procura, mercado apertado.

Um estudo recente da ISSA (International Sports Sciences Association), que junta dados do Bureau of Labor Statistics dos EUA a um inquérito a operadores do setor e às conclusões do ISSA Global Summit 2026, vem desmontar essa ideia. E, sinceramente, é uma leitura que qualquer pessoa ligada a ginásios (gestores, treinadores, ou quem, como nós na BOOMFIT, vive os dois lados) devia fazer com atenção.

O problema não é a quantidade. É a preparação.

Os números de emprego são, à partida, positivos: o setor deverá crescer bem acima da média das outras profissões na próxima década, com milhares de novas oportunidades por ano só nos EUA. Se olhássemos só para isto, a conclusão óbvia seria "precisamos de formar mais gente".

Mas, este estudo da ISSA chama a atenção para outra coisa: muitos candidatos chegam ao mercado com boa base técnica (sabem anatomia, fisiologia, planeiam um treino correto) e mesmo assim não estão preparados para o que o trabalho realmente exige hoje. A este fenómeno chamam "readiness gap": a distância entre o que a formação ensina e o que a profissão, na prática, pede.

E isto muda tudo. O desafio deixa de ser "encontrar mais treinadores" para passar a ser "encontrar treinadores que cheguem prontos".

A certificação, sozinha, já não chega

Apesar de continuar a ser a base (e sempre será), a verdade é que a certificação deixou de ser suficiente para diferenciar um candidato.

Hoje, um cliente entra num ginásio já informado, já com uma app no telemóvel que lhe gera treinos, já com um relógio que lhe diz como dormiu e como recuperou. O conhecimento técnico, que durante anos foi o principal ativo de um treinador, está cada vez mais acessível a qualquer pessoa, de graça ou quase.

Isto significa que aquilo que um PT sabe sobre séries e repetições deixou de ser o que o distingue. O que o distingue é o que ele faz com isso: como comunica, como cria confiança logo no primeiro contacto, como mantém alguém motivado num dia em que essa pessoa não tinha vontade nenhuma de treinar.

A IA não vai substituir o Personal Trainer, vai torná-lo mais necessário

Quanto mais a tecnologia consegue fazer aquilo que antes só um treinador sabia fazer (desenhar um plano, analisar dados biométricos, sugerir uma carga) mais o valor do treinador se desloca para aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir: perceber porque é que alguém desistiu três vezes este ano; perceber que aquele "não consigo hoje" esconde outra coisa ou estar presente quando a motivação falha.

Dito de outra forma: a tecnologia pode propor o treino. Mas, o personal trainer é quem consegue que a pessoa realmente o faça e volte na semana seguinte, e na seguinte, e daqui a um ano.

Isto devia tirar peso de cima de muitos PTs que sentem a IA como ameaça. Não é. É o oposto: quanto mais IA houver no mercado, mais valioso se torna aquilo que só um humano sabe fazer.

E na Europa? Não é bem a mesma história

Vale a pena parar aqui um segundo, porque seria fácil ler este estudo e assumir que se aplica cá tal e qual. Não se aplica, pelo menos não da mesma forma.

O relatório da ISSA fala de cadeias gigantes, como a Anytime Fitness ou a Snap Fitness, com centenas de vagas de treinador por preencher em simultâneo. É um problema de recrutamento em escala industrial. Aqui na Europa, e em Portugal em particular, a realidade do setor é outra: é um mercado feito sobretudo de pequenos negócios e treinadores independentes, muitos deles a trabalhar por conta própria ou em pequenas equipas de estúdio, sem uma estrutura de carreira "corporativa" por trás.

Isso muda a forma como o "readiness gap" aparece. Não é tanto "o ginásio não encontra gente para contratar", mas sim: "o PT freelancer nunca aprendeu a parte de negócio da sua própria carreira": captar clientes; reter clientes; comunicar o seu valor ou definir o preço certo pelo seu trabalho. São competências que nenhuma certificação técnica ensina, e que aqui pesam ainda mais, porque muitas vezes o personal trainer é, ao mesmo tempo, o seu próprio gestor, o seu próprio marketing e o seu próprio comercial.

Dito de outra forma: o problema de fundo é o mesmo dos dois lados do Atlântico! A formação técnica deixou de chegar. Mas cá, esse gap sente-se sobretudo na pele de quem trabalha sozinho, sem departamento de recursos humanos nem equipa de marketing a apoiar. E é exatamente por isso que achamos que esta conversa precisa de ser trazida para o nosso setor, com os nossos exemplos e a nossa realidade, não só repetida a partir de um relatório americano.

O que isto significa na prática, para quem treina pessoas todos os dias

Fica bonito no papel, mas o que é que isto muda no dia a dia de quem está no chão do ginásio? Partilhamos aqui algumas ideias práticas:

👉 Trata a primeira conversa como o momento mais importante da relação. Não é a avaliação física que decide se um cliente fica ou vai embora: é se sentiu, nos primeiros cinco minutos, que foi ouvido.

👉 Aprende a ler desmotivação antes de ela aparecer. Um cliente que falha uma sessão não é (só) um problema de agenda. Pergunta, com curiosidade genuína, o que mudou.
Não escondas o que a tecnologia te dá — usa-a a teu favor. Se um cliente já chega com dados do relógio ou de uma app, usa isso como ponto de partida da conversa, não como concorrência.

👉 Investe em comunicação tanto como investiste em anatomia. Um curso de comunicação, de escuta ativa, ou simplesmente pedir feedback aos teus clientes vale, hoje, tanto como uma certificação técnica extra.

👉 Pensa em ti como alguém que ajuda a mudar hábitos, não só a prescrever exercício. É uma mudança de identidade profissional pequena na frase, mas grande na prática.

👉 Se trabalhas por conta própria, trata o "negócio" como parte do teu trabalho, não como um extra. Perceber como comunicar o teu valor, como reter um cliente e como cobrar de forma justa pelo teu trabalho é tão parte da profissão, hoje, como saber montar um plano de treino.

A visão da BOOMFIT

Acreditamos que o futuro do personal training não vai ser decidido por quem sabe mais sobre séries e repetições, mas por quem sabe estar ao lado de uma pessoa nos dias em que ela não tem vontade nenhuma de aparecer. 

A tecnologia vai continuar a tornar-se mais capaz: e está tudo bem com isso.  O nosso trabalho, como marca, é garantir que essa evolução técnica anda a par com a evolução humana da profissão.

Não faltam personal trainers. Faltam PTs preparados para o trabalho que a profissão é hoje: não o que era há dez anos. E essa é uma conversa que vamos continuar a ter aqui.

 

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